terça-feira, maio 11

Oração dos humildes

De repente, a vida passou a ser contada em anos.

Motivos havia muitos para escrever. Não pude. Até o médico mandou que eu escrevesse. Não pude.

As palavras viraram uma sina, depois uma cisma, e então uma cobrança pesada demais para continuá-las amando. Elas eram tudo o que eu já não podia ser. Vaiodosa demais, procurava o aplauso e me esquecia do ofício. Não deu.

Eu achava que as palavras eram minhas. E que as pessoas iam me amar se amassem as minhas palavras. Que vexame. Porque as palavras não têm dono. E eu as castiguei, amarrando as palavras ao pé da mesa, à sombra de um coração amargurado, a um par de pernas cambaleantes, aos olhos quase cegos, ao corpo inerte, aos sonhos asfixiados.

Escrever é um gesto de humildade, agora eu sei. É a oração dos humildes.

quarta-feira, abril 29

Só as mães são felizes

Minha filha querida, seja bem-vinda. Não agüentei te esperar e fui dormir. Tem sopa de músculo na geladeira. Amanhã vamos passear. Beijos. Mamãe.”

Encontrei esse bilhete em cima da mesa da cozinha, quando cheguei em Jundiaí, numa sexta-feira. Tinha tido um dia horroroso, de mau humor severo, de choro contido que trava a boca e as pernas, e aumenta o apetite. Só pensava em chegar ali, onde o amor transborda. E comer a sopa, que eu imaginava estar na geladeira, mesmo não gostando de músculo.

Mamãe é do tipo que deixa bilhetes. Hoje, pensando nela, me dei conta de que minha mãe ama as palavras tanto quanto eu. E numa conclusão tardia e óbvia demais pra eu ter enxergado antes, entendi que esse foi o maior presente que ela me deu: o apreço pelas letrinhas juntadas.

Não fez faculdade. Outro dia ela me contou, às gargalhadas, que fez colegial técnico em secretariado porque o “normal” era difícil demais. Fico tentando imaginá-la aos 18 anos, na escola, figura carismática e engraçadíssima que é. Devia ser ansiosa demais para acompanhar as aulas. E devia achar que não era inteligente – uma grande bobagem na qual ela acredita até hoje. Mamãe é a única mãe que conheço que fez intercâmbio. Tem umas fotos dela lá em casa, na caixa em cima do guarda-roupa, com casacos de pele, no meio da neve de Nova Iorque. Já era linda nessa época, com cabelos pretos compridos e uns olhos verdes de holofote.

Junto com essas fotos, tem centenas de outras, e tem uns bilhetes também, escritos por mim e pelo meu irmão. Tem um livrinho que o Lucas pintou na escola, aos 5 anos, desses que os alunos fazem no dia das mães. Numa das páginas, sob o título “Mamãe, já sei desenhar você”, há um desenho simplesmente horroroso – a “mulher” dos rabiscos, que o Lucas jura se tratar da minha mãe, tem uma cabeça gigantesca e bigode. E mamãe, lógico, ama de um amor absoluto tudo isso. E, de coração, se reconhece. Assim como ama os meus rascunhos, os meus chiliques, e parte das minhas opiniões idiotas.

Mamãe é uma unanimidade entre os nossos amigos, entre os amigos dela, entre os sobrinhos, entre todo mundo. É sucesso nos lugares, na aula de pintura, na hidroginástica, até no supermercado perto de casa . Ela compra presentes, lembrancinhas, e distribuiu com uma naturalidade assustadora. Exemplo: ela ficou amiga do seu Zequinha (????), o ajudante faz-tudo lá do supermercado, e comprou uma camisa pra ele, presente de aniversário. Ela vai viajar e traz coisas, pra muita gente, pra amigos meus, inclusive. E faz as pessoas se apaixonarem por ela, não pelos presentes, mas pelo olhar generoso, pela delicadeza escancarada e despretensiosa. Mamãe é demasiadamente humana.

O fato é que, ao contrário do que minha arrogância infantil supunha, mamãe é bem feliz com vida que tem, sem os rótulos de uma “carreira profissional” ou algo parecido. Talvez isso seja o mais comovente nela, a honestidade e a simplicidade com que encara o mundo. E é por isso, sem títulos ou diplomas, que ela ama as palavras e as histórias.

Uma delas é minha preferida. Mamãe conta – com os olhos marejados – que planejou ter uma filha com meu pai ainda nos tempos de namoro. Eles queriam um casal de filhos, mas a menina tinha que nascer primeiro. Até o nome já estava escolhido – acho que desde as cartas que os dois trocavam durante a estadia de 6 meses de mamãe nos EUA. No início de agosto de 1980, num dia frio e bastante ensolarado, ela chegou no sobrado da rua Cajuru, me carregando nos braços. Estava sozinha, meu pai tinha ido trabalhar, acho. Éramos eu e ela. Mamãe me desembrulhou da manta, e me colocou em cima da cama de casal. Abriu a janela pro sol entrar e esquentar. Ajoelhou-se, começou a chorar. E rezou para que Deus a ensinasse a ser mãe e a cuidar bem de mim.

Escrevo tudo isso no dia em que mamãe completa 54 anos. Mandei entregar flores pra ela bem cedinho, azaléias rosas, vistosas. Escrevi um bilhetinho também, como faço todos os anos. “Mamãe, de todas as minhas partes, você é a mais importante. Te amo. Feliz Aniversário. Um beijo.”

Escrevi assim porque não conheço outras palavras. Talvez eu aprenda novos termos quando for mãe também. Nesse dia, vou entender como se faz para amar como ela ama, de modo incondicional e irrestrito. Um amor de marejar as vistas.

terça-feira, janeiro 13

Esclerose

De tudo o que vi hoje, é o seu rosto que não me deixa dormir. Nem mentir.

E olha que vi coisas hoje. E menti coisas também, mas isso é mais difícil de admitir, porque eu nunca minto, sou pessoa idônea, sou do tipo que se orgulha de ser pobre e de pouca beleza, mas pessoa boa, sou de muita verdade, ah isso sou, até minha mentira é verdade, verdade que não posso carregar. É, eu minto.

Tenho acordado todos os dias esquecida de mim. Antes de abrir os olhos, já me doem as costas e a cabeça, tento não abrir os olhos, porque sei que quando isso acontece o dia não tem volta. Mas abro os olhos, fazer o quê, aprendi assim. Quem acorda precisa abrir os olhos, ou vai andar cochilando e pensando que despertou. Assim, sem saber como faz pra não olhar, levanto da cama com algum esforço. É uma cama de casal , sabe? Queria tanto mais espaço na cama, e no entanto tenho me encolhido num dos lados, quase me derrubo, não mereço a cama. Eu guardo lugar pra alguém que nem conheço, mas isso é outra dor, nem cabe aqui contar, a mãe de todas as dores.

O fato é que, apartada de mim, o esquecimento me ocupa o dia todo. Todos os dias me levanto com a missão de lembrar quem sou. Passo as horas duvidando de tudo, não tenho amigos, nem família, nem talento, nem música preferida, nem amor. E quando me recordo deles, dos amores e desamores, chego a chorar de saudade, onde estavam, me ajuda, não vão embora.

Amanhã cedo nem vou me lembrar de você, nem do seu rosto que não me deixa dormir. Por isso, tenho pressa. Preciso escrever tudo, contar tudo, tirar de mim o que sobrou do dia, o que sobreviveu ao cansaço de tentar recordar.

Você também estava cansada hoje. Reclamou. O cansaço te deixa culpada, a vida berra em cada canto, mas você tem sono, moleza, preguiça, quer deitar, não consegue ir adiante. Você chora e se desculpa, acha que incomoda, que estraga o almoço com sua cara de merda, uma merda que não dá pra disfarçar, desculpa gente. Estou comovida, como é difícil cambalear, as pernas traem, eu bem sei. Vai pra casa, descansa, damos um jeito. É só um dia ruim, insisto, rezo, Deus, que isso não se repita amanhã, mas amanhã não existe, amanhã vai ser hoje de novo e vou ter de aprender tudo de novo.

Fico pensando que gostaria de te dar o tempo de presente, pra você ter finalmente a certeza de que a vida, a vida é degenerativa não só pra você. A minha matou uma criança e um bocado de sonhos.

De tudo o que vi hoje, é o seu rosto que não me deixa dormir. Um rosto cansado, chateado, medroso. Um rosto sem mentira, sem preço, sem batom.

No meio de tanta lama, abro os olhos e vejo a tua dor, o teu esforço, a tua coragem. E, por um segundo, chego a alcançar a alegria por estar entre humanos, por gostar de você, por amar as histórias e achar que sou nobre a ponto de consertar o mundo. Pena amanhã esquecer minha megalomania, e voltar a seguir corcunda por aí.

sexta-feira, janeiro 2

Como pode um peixe vivo viver fora da água fria?

Ajoelhada na beira do mar, podia sentir os meus pés suarem e tremerem. Meus olhos não viam nada, como que cansados de um tempo em que ficaram atentos e inchados demais. Eram os olhos devotados de todas as viradas de ano, um par de olhos alagados, comovidos.

Meu coração nem batia, acho. Só podia sentir o gosto de sal na boca, e os pés molhados de sal, e o cheiro das rosas brancas que eu segurava com tanta fé.

Levantei, olhei o céu, barulho e beleza, ofereci as flores, tudo encharcava agora, inclusive as roupas, as promessas, a esperança, o desejo, a vontade.

Meus olhos secaram a tempo de ver que o mar me devolvia, gentilmente, as flores que acabara de entregar. A onda trouxe as rosas de volta, minutos depois, ou séculos depois, ou vidas depois.

Pode ser que outras vezes o mar as tenha devolvido, ou as recusado, quem sabe? Mas não pude reparar, ou nem merecesse as flores, ou nem precisasse delas.

Mas ontem as rosas voltaram. E tive certeza de que eram as minhas, e de que eram pra mim.

Que eu nunca mais as perca de vista.

Assim seja.

quarta-feira, maio 14

Sampaulo

Sabe, eu não gosto. Sampaulo é coisa muito grande pra quem se sente pequena como eu.

Lembro que quando era mais pequena ainda, ia pra Sampaulo pra comer no MacDonald´s. Comia aquele "x-salada", que vinha com a parte quente separada da fria. E depois o pai levava a gente na Paulista e sentenciava: "Essa é a avenida mais importante do Brasil-sil!".

O meu coração é provinciano. E não vejo beleza nessa cidade que pra mim, de fato, nunca foi bela. Eu só tinha a fome e a gula de uma criança gordinha no final dos 80, e Sampaulo perdeu o tempero quando a meca do fast food chegou em Jundiaí. Sampaulo é entupida demais pra alguém ansiosa como eu.

Sampaulo é de um exagero inútil. Um erro de logística. Eu tenho preguiça de Sampaulo, uma cidade que não me dá motivo.

Entrei nessa de amaldiçoar a Capital porque me sinto pressionada. Ando a procura de uma casa, e meia dúzia de paulistanóides deram pra me apurrunhar. Coisa chata, isso. "Ai, não acredito que você vai comprar um apartamento no Rudge Ramos! Vem pra São Paulo, meu! Sua vida vai mudar, é outro mundo!"

Alienígenas, por favor, me esqueçam. Paulistanos, engulam Sampaulo, sejam gorfados por Sampaulo, ruminados por Sampaulo. Divirtam-se nos bares blasés da Vila Madalena, nas livrarias chiques dos Jardins, nas padarias 24 horas, nas baladas que custam 5474 reais. Gozem ao passear na Oscar Freire, babando nas vitrines, e depois torrem o salário na José Paulino. Adorem o metrô, o Parque do Ibirapuera. E não me encham o saco.

Sampaulo é um mal necessário. O pior é que preciso de Sampaulo, não nego. Pensando na minha carreira um tanto capenga de jornalista, seria bom arrumar um emprego por lá. Aprender como é que se sobrevive no limbo, como se distrair no trânsito, como ser mais sozinho.

Mas enquanto puder, ainda quero voltar pra casa. Não tem nada errado nisso. Não é um erro andar por onde se gosta. Enquanto ainda se pode.

Pelo direito de permanecer onde estou; pelo direito de ser caipira, atrasada; pelo direito de ser a a Illenia, "do contra"; pelo direito de ir a Sampaulo sem compromisso, visitar pessoas amadas; pelo direito de simplesmente achar Sampaulo uma bosta (apesar dos sambas, dos botecos, e dos restaurantes naturebas); e pelo direito de mudar de idéia, por favor, me economizem. E, em breve, venham me visitar no Rudge Ramos.

terça-feira, novembro 20

Voltei a cantar...

Depois de doses homeopáticas de atenção; depois de trocas de carinho esmigalhadas; depois de ouvir aquele samba triste da Dona Ivone Lara - e de gritar o samba, e de chorar o samba; depois de comer 18 sonhos de valsa e ver que a amargura, tem dias, é troço sem conserto; depois de entupir o ouvido de Iemanjá com prece; depois de 73 quase-melhoras, seguidas por 73 super-recaídas; depois de desgrudar da minha cabeça a foto que a gente nunca tirou; depois de ficar muda...chega. Haveria de recuperar o rebolado. Desfigurado é sujeito que não tem fé. E fé me sobra, que até distribuo ou troco por juízo do bom. As palavras estão voltando. As palavras, se não me foram fiéis, leais não deixaram de ser. As palavras estão voltando. E eu também. Porque um moço de palavra um dia disse que o silêncio precede o esporro. Ninguém me segura.

terça-feira, outubro 23

Foram

As palavvras fugiram de mim. Pago caro, agora, por tê-las maltratado. Por acreditar que talvez estivessem dormindo, como eu estava. Mas as palavras não dormem. Me distraí, cansada, e elas correram. Só saem se as bem ensaio, e por isso nem de longe parecem minhas. Tento as pazes, mas o sono bate, elas são velozes, não as enxergo. É solitário sem elas. O mundo parou há dois meses, isso elas me mostram. As palavras foram.