De repente, a vida passou a ser contada em anos.
Motivos havia muitos para escrever. Não pude. Até o médico mandou que eu escrevesse. Não pude.
As palavras viraram uma sina, depois uma cisma, e então uma cobrança pesada demais para continuá-las amando. Elas eram tudo o que eu já não podia ser. Vaiodosa demais, procurava o aplauso e me esquecia do ofício. Não deu.
Eu achava que as palavras eram minhas. E que as pessoas iam me amar se amassem as minhas palavras. Que vexame. Porque as palavras não têm dono. E eu as castiguei, amarrando as palavras ao pé da mesa, à sombra de um coração amargurado, a um par de pernas cambaleantes, aos olhos quase cegos, ao corpo inerte, aos sonhos asfixiados.
Escrever é um gesto de humildade, agora eu sei. É a oração dos humildes.
Terça-feira, Maio 11
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